O que é IPO (Oferta Pública Inicial) e Como Ela Funciona


Você não precisa gastar muito tempo no mercado de ações para descobrir que há algo questionável nas ofertas públicas iniciais (IPOs).  Enquanto isso pode ou não ser verdade em alguns dos casos, há um grande número de armadilhas que aguardam o futuro trader ou investidor de IPO.  É um caso de compra por própria conta, onde não há garantias. Para você o grau de cautela devido, vocé deve entender como uma IPO funciona e como ela pode ser manipulada por terceiros para sua desvantagem.

Uma IPO é o meio pelo qual uma empresa particular é vendida ao público.  Os donos da empresa vão a um grande banco de investimento para lançar a IPO.  Esse banco então forma um time de bancos e corretoras para executar a IPO.  Ações são vendidas pela empresa para o time e pelo time aos seus clientes.  O negócio pode ser estruturado de maneiras diferentes, mas em geral o time garante que vai encontrar compradores para as ações, aceitando o risco financeiro se falharem. O time vende as ações da empresa prestes a se tornar listada na bolsa de valores a um preço maior do que foi adquirido.  Esta diferença de preço é definida no contrato entre a empresa e o banco de investimentos e nos EUA está em cerca de 7%.  Uma vez que as ações tenham sido vendidas aos clientes do time, elas podem começar ser comercializadas na bolsa.  O banco de investimento que liderou a IPO atua como “criador” de mercado para uma nova ação.

Até aí não há nada de errado nisso. Sim, o time e o banco levam uma boa grana.  Mas eles também estão fornecendo um exército de vendedores para colocar a IPO para potenciais clientes.  Sem esses vendedores para impulsionar a demanda, as ações não podem ser vendidas ou serão vendidas por um preço muito mais baixo.  Estão prestando um serviço potencialmente muito valioso a um preço previamente combinado.

Mas, como você pode imaginar, quando há um monte de dinheiro em jogo, as pessoas ficam gananciosas e tentam agarrar uma fatia maior do bolo.  E quando as pessoas ficam gananciosas coisas estranhas começam a acontecer.

A primeira coisa que acontece é que o time e o banco não tentam procuram encontrar possíveis compradores dispostos a pagar os preços mais altos pela ação.  Em vez disso, alocam as ações a um preço baixo intencionalmente para clientes favorecidos.  À primeira vista, isso não faz nenhum sentido – já que o banco está recebendo um valor fixo da venda, eles deveriam querer vender pelo máximo possível. Mas, como veremos daqui a pouco, o banco pode, potencialmente, fazer mais dinheiro vendendo por menos.  Esta prática de preços menos do que ótimos assegura que o preço da ação começará a ser negociada na bolsa acima do preço de IPO.  Isto por sua vez representa uma transferência direta de riqueza dos donos da empresa sendo lançada na bolsa para clientes preferenciais do banco de investimento.  Aqueles com estas ações  poderiam vender assim que a negociação na bolsa começar e obter um lucro quase que certo.

Mas bancos de investimento não são instuições de caridade; elas não doam dinheiro. Então por que preços menores a clientes favoritos?  A resposta é que os clientes são “favoritos” porque eles estão dispostos a pagar caro por outros serviços oferecidos pelo banco de investimento fora do âmbito da IPO.  Em troca deste patrocínio, o banco de investimento lhes dá bom lote de IPO de ações.  O que isto significa é que todo o dinheiro “doado” por deixar as ações saírem por um custo baixo voltam na forma de taxas bancárias futuras.  O que acontece é que, ao invés do banco de investimento ficar apenas com 7%, ele, basicamente, obtém todo esse dinheiro de volta, capturando os outros 93% também. Muito bacana.

Se o processo pára por aí, não teria muito efeito na dinâmica do mercado uma vez que as IPOs começarem a ser negociadas na bolsa. Mas há mais nessa história. O banco pode manter algumas das ações para si.  Isto é feito em parte para fornecer inventário para as operações de mercado subsequentes, mas como a alocação foi feita com preço intencionalmente desvalorizados isto também representa um lucro certo para o banco. Para realizar este lucro, o banco precisa vender suas ações no mercado aberto à preços inflados pós-IPO.  É aí que o mercado e as organizações de vendas entram.

A fim de facilitar a venda das ações dos bancos a preços elevados, os preços devem permanecer altos.  É aí que a operação de “criar mercado” (controlada pelo mesmo banco) entra em jogo – eles têm capacidade para “estabilizar” o preço dos títulos a um preço alto por estar disposto a comprar todas as ações que vêm para a venda no mercado aberto.

Isso pode parecer contraproducente pois a fim de estabilizar o preço que o banco tem que comprar ações quando o que eles querem é vender ações.  Mas não tenha medo – eles têm uma solução:-).  A mesma organização gigante de vendas que colocou as ações IPO abaixo do custo agora vai trabalhar para convencer os clientes menos favorecidos (leia-se otários) a comprar ações no mercado aberto por um preço muito mais elevado.  Ao fazer isso, eles podem vender o inventário do banco (e quaisquer ações adquiridas através de estabilização).  Por fim, as ações dos bancos, bem como as de clientes favorecidos que querem vender na alta, são transferidas para os clientes otários e banco retém apenas as partes mínimas necessárias para fazer as operações de mercado.  Quanto mais eficaz a operação de vendas, maior o preço médio de venda de ações retidas do banco.  Resultado: ainda outro lucro para o banco.

Agora, a operação de “criação de mercado” pode parar de “estabilizar” o preço e deixá-lo cair, deixando os otários segurando a perda.  Mais uma vez, a riqueza foi transferida, mas desta vez dos clientes pequenos para o banco.

Para aumentar mais os lucros, os bancos podem tentar contornar o problema atribuindo quotas para alguns laranjas que vão canalizar os lucros de volta de alguma forma.  Isso é ilegal, mas é um ilegal bem praticado.  Nos EUA, pelo menos dois bancos de investimento que quebraram por acusações criminais relacionadas com repasse de ações IPO para laranjas: Drexel Burnham Lambert e Stratton Oakmont.  Drexel era o quinto maior banco do mundo.

Uma coisa a notar é que o trabalho de vender ações pós-IPO não é necessariamente tão difícil.  Como as ações abrem acima do preço de IPO (por vezes substancialmente) e a “estabilização” as impede de cair, o gráfico e o comportamento geral das ações pode muito bem parecer atraente para o investidor ingênuo.  Quando há um “frisson” em torno da nova ação, pode ser muito fácil fazê-la sair dos livros.

O processo sombrio de IPO cria um padrão de comportamento de preço previsível para as ações de IPO.  A alocação inicial ocorre a um preço atraente, mas não há como obte-las.  Quando a negociação na bolsa começa, ela abre a um preço muito mais elevado e muitas vezes sobe por um período enquanto vendedores vendem ações como macacos alimentados a pilha e as operações de “criação de mercado” fornecem a “estabilização”.  Quando todo mundo que precisava vender vendeu, os vendedores dão o próximo passo e a estabilização de precos é removida; os preços caem substancialmente.  Agora, passado este ponto o mercado está em um estado mais natural.  Muitas empresas saem se bem após a IPO e conseguem um bom dinheiro para seus investidores.  Mas a curto prazo o preço é regido pela dinâmica da IPO.

Como um operador ou investidor, você precisa entender que se comprar ações IPO logo após a abertura da bolsa, você está espelhando o comportamento dos clientes otários do banco.  Os grandes jogadores estão tentando vender e não importa o quão atraente o gráfico possa parecer, mas você provável estará em apuros.  Um exemplo típico:

Esperemos que este artigo lhe ajude a compreender a dinâmica das IPOs um pouco melhor.


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