Por Que as Pessoas Compram na Alta e Vendem na Baixa?


Ser bem sucedido em investimento é difícil. Não complicado, apenas difícil. É difícil porque estamos programados a cometer o mesmo erro várias vezes. Compramos na alta e vendemos na baixa porque isso é o que todos fazem. Mas como qualquer problema que precisa ser corrigido, o primeiro passo é reconhecer o problema e, em seguida, ter um plano para evitá-lo.

Comprar na alta e vender na baixa

Nós não temos que olhar muito longe para encontrar muitas evidências de comportamento dos pobres investidores em grande escala. Nos EUA em 1999, quando a o mercado lá estava crescendo e crescendo, a NASDAQ subiu mais de 85% naquele ano. Como se essa euforia não bastasse, o primeiro trimestre de 2000 foi uma loucura. Foi um frenesi com todo mundo comprando. Até Janeiro de 2000, o recorde de entradas líquidas (dinheiro entrando menos dinheiro saindo) para os fundos mútuos de ações foi de US$ 29 bilhões.

Em Janeiro, foram depositados US$ 44,5 bilhões em fundos mútuos.

Em Fevereiro, o mês mais curto do ano, o afluxo atingiu U$ 55,6 bilhões. Isso é quase U$ 2 bilhões por dia.

Em Março, não foi de se desprezar, um investimento de mais de U$ 39,9 bilhões.

Pense nisso. Durante três meses, U$ 140 bilhões entraram no mercado depois dele ter ganhado 80%. Numa altura em que se deveria ter tido alguma cautela, investidores se permitiram ser arrastados junto com a multidão e pagaram por isso. 24 de Março de 2000 foi o auge e em Outubro de 2002 o mercado tinha perdido 50% do seu valor.

Medo e ganância

Como se não bastasse o comportamento insano no auge, na queda ele não foi melhor. Com o S&P 500 abaixo 50% de sua cotação máxima, não conseguiram vender tão rápido quanto queriam. Outubro marcou o quinto mês consecutivo em que os investidores retiraram mais dinheiro do que investiram em fundos mútuos de ações. Isso nunca tinha acontecido. Repito, nunca. Outubro acabou com o mercado em baixa. Com o mercado em baixa, em vez de comprar ações, na maior “promoção” de preços nos últimos cinco anos, os investidores americanos transferiram seu dinheiro para fundos de bonds, fazendo o clássico erro de ter comprado na alta e vendido na baixa. Fundos de bonds experimentaram uma entrada recorde de US$ 140 bilhões em 2002, num momento em que os bonds tiveram sua melhor cotação em 46 anos.

Quantos dos americanos se tornaram investidores do mercado imobiliário em 2006? Quanto estão comprando ouro agora? Consegue ver o mesma coisa se repetindo?

Quebrando o círculo

Uma vez que o problema foi reconhecido, podemos corrigi-lo. O primeiro passo é ter um processo de investimento bem pensado pensando em como podemos continuar seguindo quando a situação ficar difícil. Investir envolve riscos e por isso não importa o nosso processo de investimentos, existirá momentos em que somos testados. Haverá momentos em que seremos tentados a retirar o dinheiro “apenas até as coisas se acalmarem” como alguns fizeram em 2002. Mas a única esperança real de seguir uma estratégia de investimento é compreendê-la, pelo menos o suficiente para ter a confiança necessária para manter-se disciplinado em tempos difíceis.

1º Passo: compre um fundo de índice atrelado ao Ibovespa

Este é o primeiro grande passo e não é nenhuma novidade. Está provado que 80% ou mais dos fundos mútuos de gestão ativa tem um desempenho menor que o índice que segue.

Macacos versus gestores ativos

Então porque pagar por um desempenho inferior?

Invista em um fundo de índice de baixo custo. Esta simples decisão ajuda a evitar:

  • Apostar em uma determinada indústria ou setor. Vemos isso quando tentamos pegar o próximo setor quente, como tecnologia, bancos ou petróleo. É muito comum as pessoas pensarem que podem fazer isso, mas  é uma ilusão.
  • Market timing. Nós sabemos que a nível teórico de que o timing do mercado não funciona mas muitas vezes agarramos rápido qualquer coisa que possa parecer uma pesquisa detalhada sobre a direção dos mercados. Basta lembrar que previsões são nada mais que suposições e você precisa manter o seu plano.
  • Possuir ações individuais. Embora certamente não seja impossível identificar a próxima Petrobrás, a história prova que é altamente improvável. Compra em grande escala concentradas em ações individuais pode ser um caminho para uma fortuna incrível, mas também pode ser um jogo de roleta.

2º Passo: criando um portfólio diversificado

Diversificação é a coisa mais próxima que podemos encontrar para cerveja de graça em finanças. A magia da diversificação é que você pode ter dois ativos de alto grau de risco mas quando você mistura, o resultado se torna menos arriscado porque sobem e descem em momentos diferentes um do outro.

Teoria da diversificação

Para demonstrar isso, vamos olhar para duas carteiras: A e B. A está atrelado a um fundo de indice com retorno anual medio de 11,17%, enquanto B esta atrela a um de 10,72%.

Agora vamos olhar o risco associado a cada uma desses investimentos hipotéticos.

Embora haja muitas maneiras de se visualizar o risco para os nossos propósitos, vamos nos concentrar no número de trimestres negativos e a volatilidade medida pelo desvio-padrão (quanto menor o número, melhor). O de A teve 42 trimestres negativos e um desvio-padrão de 15,39%. O de B tive 45 trimestres negativos com um desvio-padrão de 17,26%.

Como você pode ver, cada uma destas carteiras parecem arriscadas individualmente. Mas a magia da diversificação é que quando nós misturamos os dois, o conjunto todo é melhor do que a soma das suas partes.

Então vamos criar a carteira C usando o padrão de distribuição com de 60% para o de A e 40% para o de B. Agora esta carteira recebe o retorno de 11,21%. Embora isso não seja muito melhor do que A sozinho, em termos de risco, a carteira 60/40 teve apenas 37 trimestres negativos com um desvio padrão de 14,45%.

Isso pode não parecer muito, mas na verdade é cerveja gratuita. Esta carteira retorna  uma taxa maior, com menos riscos, através do simples processo de diversificação.

3º Passo: reduza os riscos adicionando títulos

Quando falo de diversificação, costumo frequentemente ouvir que são ineficientes.

Claro que você pode ter os benefícios da diversificação mesmo quando estiver lidando com diferentes tipos de ações. Mas em tempos de grandes riscos para o mercado de ações (como vimos nos últimos anos), o valor de diversificação entre as classes de ativos de capital pode muitas vezes podem se evaporar.

Embora seja possível planejar cuidadosamente seu portfolio de ações para tomar cerveja de graça, o poder real da diversificação na forma de redução de risco vem quando você começa a combinar ações com títulos do tesouro.

Vamos comparar a carteíra de ações 60/40 que nós criamos acima (carteira C) com uma carteira onde podemos adicionar 40% em títulos.

Lembre-se que a carteira C gerou um retorno de 11,21%, com 37 trimestres negativos e um desvio padrão de 14,54%. Quando adicionamos 40% em títulos, criando a carteira D, conseguimos um retorno de 10,4%. Isso não é muito menor do que a carteira formada só de ações e reduzimos o número de trimestres negativos para 35.

Mas o verdadeiro impacto está na redução do risco que vemos na forma de volatilidade muito menor medida pelo desvio padrão de 9,48%. Em outras palavras, os altos e baixos da carteira D será menor do que as carteiras A, B e C.

Embora não esteja sugerindo que essa carteira seja adequada para todo mundo ou sirva como modelos de previsão, dados históricos mostram como a diversifição pode lhe dar a opção de proteger-se de muitos acontecimentos aleatórios que arruinaram fortunas.

Além disso, ela permite posicionar se para aproveitar dos lucros que as ações oferecem equilibrado com a segurança que os títulos do tesouro proporcionam.

4º Passo: automatização e reequilíbrio

Então agora você tem a sua nova carteira. E depois? É hora de torna rotina alguns práticas. Uma tarefa que muitas vezes fica ignorada é o reequilíbrio; é isso que chamo de automoatização. O principal objetivo do reequilíbrio é periodicamente redefinir a sua carteira voltando baseado na divisão original entre ações, títulos e outros investimentos. Tudo o que você está tentando fazer é manter o risco de sua carteira mais ou menos do jeito que você começou.

Reequilibrar

A maioria das pessoas parece seguir duas filosofias de reequilíbrio: fazê-lo conforme o calendário, digamos, uma vez por ano, ou fazê-lo quando chegar a hora certa, ou seja, quando sua carteira aumenta ou diminui fora de uma faixa pré-determinada. Mas também pode ser automatizada para acontecer sem a sua interferência.

Aqui está um exemplo de como o reequilíbrio poderia funcionar.

Digamos que quando começou, anos atrás, você decidiu que, que com base em seus objetivos, a carteira ideal foi a D, 60% em ações e 40% em títulos. Como parte desse processo, também vamos supor que você se comprometeu a reequilibrar a sua carteira para a definição original de 60/40, sempre que o saldo da carteira estiver longe disso.

Com 60/40, a alocação de sua da carteira representa a quantidade de risco que você achou que precisava para atingir o retorno necessário para alcançar seus objetivos de longo prazo. 50% em ações seria muito pouco para cumprir suas metas, mas 70% seria mais risco do que você estaria predisposto a aguentar.

Suponha que houve uma queda no mercado alguns anos depois. Com 60% de seu dinheiro em ações e 40% em títulos, com a queda do mercado, a repartição original de 60/40 da sua carteira poderia ter mudado para algo diferente. Assumiremos que nada mais mudou em sua vida e seus objetivos permaneceram os mesmos. A única coisa que mudou foi o mercado.

No nosso exemplo, vamos supor que você está esperando uma oportunidade para reequilibrar. Uma vez que é comum reequilibrar quando seus investimentos da carteira desviarem mais de cinco pontos percentuais acima do seu alvo, quando o mercado caiu você teria reequilibrado sua carteira quando atingiu 55% em ações e bônus de 45%. Isso teria significado venda títulos para comprar mais ações.

Reequilíbrio não é uma forma científica para para aumentar seu lucro. É verdade que o reequilíbrio disciplinado poderia resultar em rendimentos geralmente mais elevados, mas também poderia conduzir a retornos ligeiramente mais baixos, dependendo das condições do mercado. Reequilíbrio também não automaticamente diminui o risco de investimento, mas, novamente, dependendo das condições do mercado, ele pode aumentar um pouco ou diminuir ligeiramente o risco em períodos de tempo mais curtos.

Embora haja discussão sobre como reequilibrar e sobre os prós e contras do reequilíbrio, há um benefício claro para empregar uma estratégia disciplinada de reequilíbrio: impedir você de cometer o erro clássico de comprar na alta e vender na baixa. Warren Buffett disse que a chave para o sucesso do investimento é ser ganancioso quando todos têm medo e ter medo quando todo mundo está ganancioso. O que nós sabemos que é muito difícil de fazer.

É difícil de comprar quando o mercado está em baixa. Também é difícil vender na alta. Mas é o que você deve ser feito. Não porque você seja um gênio e não porque você previa o que iria acontecer no mercado. Pelo contrário, fez porque fazia sentido reequilibrar sua carteira para ser fiel ao seu plano. Reequilibrar é a única forma que conheço para ter maior probabilidade de comprar na baixa e vender na alta, de uma forma disciplinada e sem emoção.

Reequilíbrio me faz lembrar um pouco das listas de verificação usadas pelos médicos. Lembro-me de ter ido para uma cirurgia de rotina que seria feito no lado esquerdo do meu corpo. Quando fui para a cirurgia, encontrei com o médico que sabia exatamente o lado do meu corpo que seria operado, mas como parte da sua lista de verificação, ele me perguntou novamente antes e após a operação. Depois que ele saiu nada menos que quatro pessoas diferentes vieram com a minha lista e perguntaram-me de que lado estava operando.

Cada vez que respondia o lado esquerdo, mais minha curiosidade aumentava para saber o porquê de me perguntarem tantas vezes. Quando estava na mesa de operação e antes de ser anestesiado, o médico que encontrei no dia anterior perguntou-me novamente o lado que ia ser operado, me entregou uma caneta e pediu para marcar o local.

Quando o encontrei alguns dias depois, como parte da minha visita pós-operatória, perguntei por que haviam seguido esse procedimento. Me disse que era uma lista de verificação para evitar que fizessem algo estúpido, como operar o lado errado. Custou só um ou dois minutos e uma caneta para evitar o que seria, obviamente, um enorme erro.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *